sexta-feira, 21 de abril de 2017

Faixa de pedestre: orgulho tipicamente brasiliense

Há duas décadas, a cidade se transformou num símbolo de paz no trânsito ao adotar o respeito ao pedestre que atravessa as ruas da capital

A controversa capital do Brasil, tantas vezes achincalhada por seus opositores nos primórdios da construção ou nos tempos atuais, é símbolo de resistência e vanguarda nas artes, na arquitetura, na moda e também no trânsito. Há 20 anos, os brasilienses decidiram construir uma história de civilidade e valorização da vida: assim brotou o respeito à faixa de pedestres. A lei vale para o Brasil todo. Mas foi no Distrito Federal que a determinação saiu do papel, ganhou as ruas e os corações dos moradores da cidade. Desde então, a conduta virou rotina e um exemplo nacional de paz no trânsito. O fruto dessa transformação tem salvado vidas ao longo das últimas duas décadas.

Em 1996, um ano antes de o respeito à faixa ser cobrado, 266 pedestres morreram atropelados. Já em 1998, houve uma redução de 24% na quantidade de pedestres mortos. E, desde então, mesmo com aumento de 154% na frota em duas décadas, o número de atropelamentos caiu 50%. De 266 vítimas em 1996 para 132, ano passado.

Nascida no mesmo ano da faixa, a estudante Mariana Andrade, 20 anos, diz que a relação dela com o equipamento de segurança é diária e indispensável. “A faixa faz parte da minha vida. Eu uso para ir e vir da faculdade, quando vou à biblioteca estudar, ou para ir ao comércio. Quando o motorista não respeita, sinto muita raiva. Porque para ele, (o deslocamento) é muito mais fácil e confortável do que para quem está a pé”, compara.

O namorado dela, o estudante Christian Dantas, 18, complementa ao destacar que a sobrevivência da faixa depende de investimentos em educação, blitzes e da instalação de pardais para flagrar os infratores. “Aqui, em relação ao resto do Brasil, há muito respeito. Mas nos Estados Unidos, a gente não precisa nem sinalizar com a mão e o motorista já para”, compara.

Jefferson Rodrigues: "A faixa deveria ser respeitada naturalmente"

Em 1997, havia no DF cerca de 200 faixas. Hoje são mais de 5 mil. Morador de Santa Maria, o motociclista Etevaldo Fernandes, 42 anos, tem orgulho hábito brasiliense, mas teme perder a conquista por conta do desleixo de alguns. “O respeito (à faixa) é um marco para Brasília. Precisamos ter consciência e não permitir a deterioração desse hábito. Em algum momento, nós, motoristas e motociclistas, também andamos a pé”, ressalva.

Ao comentar sobre os casos de desrespeito, Fernandes assume um tom de indignação. “Acho que a nossa geração (que ainda desrespeita a faixa) não tem mais jeito. Mas eu educo meus filhos para que eles vivam uma realidade diferente. E se eles não conseguirem, que os meus netos tenha um mundo melhor”, defende.

O Correio participou ativamente dessa conquista por meio da campanha Paz no Trânsito, iniciada no segundo

semestre de 1996. Naquele ano, 25 mil pessoas pararam o Eixão para dar um basta à violência nas vias. Em 23 de janeiro de 1998, o jornal publicou uma capa que entrou para a história da cidade. Nela, o então governador Cristovam Buarque e a então deputada federal Marta Suplicy atravessaram fora do equipamento de segurança. O registro fotográfico estampou a primeira página ao lado da foto dos Beatles na Abbey Road, que deu nome ao icônico disco.

Morador de Taguatinga Norte, Jefferson Rodrigues é motorista profissional. Quando ele se habilitou, o respeito à faixa estava em vigor havia dois anos. Ele destaca que parentes de São Paulo, ao visitarem a cidade, ficam surpresos com a recomendação dele para que deem prioridade ao pedestre. “A faixa deveria ser respeitada naturalmente”, defende.