terça-feira, 28 de março de 2017

Moradores transformam rua em "condomínio" depois de onda de assaltos em bairro de classe média

O chamado “Condomínio Rouxinol”, no bairro Santa Amália, é composto de apenas uma via. Há cerca de um ano, os moradores fecharam a entrada e a saída da rua. Na parte inicial, um portão eletrônico branco já um pouco enferrujado impede a entrada de estranhos

Das grades, o visitante ainda pode enxergar tudo: uma ladeira de mais ou menos trezentos metros, cujos fundos dá para um terreno baldio, onde um muro foi construído para fechar de vez o local. 

O cerceamento foi uma medida de urgência tomada pelos moradores que já não resistiam aos assaltos registrados a uma frequência assustadora. Apenas nos dois últimos meses antes do fechamento definitivo da rua, 19 casas foram roubadas. Na maioria das vezes, os suspeitos não foram presos. “Aqui era uma coisa sem condição, cara, esse lado aqui todo já foi assaltado”, diz Marco Antônio, de 50 anos, apontando para o lado esquerdo, onde nenhuma residência saiu a salva da ação dos bandidos.

O morador Marco Antônio conta que a inciativa de fechar a rua foi uma ideia de todos e que as despesas foram dividas entre os moradores (Foto: Rogério Florentino/Olhar Direto)

Se não fosse uma medida de classe média e de medo, qualquer anarquista poderia ver na ação dos moradores um exemplo de autogestão: sem criar uma associação e sem uma liderança definida, os moradores montaram um robusto sistema de segurança que inclui cinco câmeras com infravermelho, sistema de monitoramento, alarme que alerta sobre pessoas em “atitude suspeita” nas imediações, e um aplicativo de celular para acompanhar as imagens.

Cada ferramenta funciona de maneira individual. A sirene, por exemplo, fica na casa de Ênio Ribeiro, 36 anos. Ele aperta o alarme três vezes e no terceiro comando os moradores saem às calçadas, preocupados com a possibilidade de serem roubados novamente. “Nesse mês só tocou uma vez, mas foi alarme falso”, comenta rindo o responsável pelo barulho estridente, que lembra as sirenes das escolas anunciando a hora do recreio.

Além da falta de cobertura da segurança pública, os roubos as casas da rua rouxinol são resultado da localização ruim do bairro, que fica entre áreas verdes e lotes abandonados à margem do rio Cuiabá. Nos fundos das casas do lado esquerdo da rua está a zona mais crítica do condomínio, por onde alguns bandidos desprevenidos ainda teimam em tentar entrar. Como as residências estão de costas para um terreno baldio, os moradores se juntaram para pagar alguém que limpasse a parte próxima do muro, instalaram refletores e câmeras para visualizar melhor o local.

Além das câmeras, o condomínio improvisado também possui alarme, cercas elétricas e portão eletrônico. (Foto: Rogério Florentino/OlharDireto)

O resultado é positivo, é o que afirmam em uníssono os ‘condôminos’. “Hoje se eu quiser deixar o carro dormir aqui na rua eu posso, você vê que os vizinhos põe cadeira para sentar para fora de noite, coisa que não se via mais, o lugar ficou mais tranquilo agora”, conta Tomás de Aquino, 34, morador que reforçou a segurança individual instalando cerca elétrica no muro da casa.

Fiscalização por demanda 

Em contato com a prefeitura de Cuiabá para entender melhor o caso, a assessoria explicou ao Olhar Direto que o fechamento de uma via pública é proibido por lei, mas para que o sistema de segurança seja retirado completamente do local é preciso que algum munícipe denuncie a situação à prefeitura. A melhor maneira de fazê-lo é registrar a reclamação nas Secretarias de Ordem Pública, Mobilidade Urbana e Meio Ambiente.

Não é à toa que os moradores substituíram o medo da criminalidade pelo medo da ação reguladora da Prefeitura. Durante a nossa visita Ênio Ribeiro, responsável pelo alarme, questiona: “Mas isso aí não é para denunciar não, é?”.

A preocupação é ecoada na fala de Marco Antônio. O morador, no entanto, avisa: “Que venha qualquer um aí, nós vamos brigar”, diz ele se referindo a possibilidade do portão, do muro e das câmeras serem retirados. O fechamento de vias públicas não é novidade em Cuiabá. O cerceamento acontece principalmente em bairros de classe média e classe média alta, que costumam ser os mais visados pelos bandidos. Casos como o da rua Rouxinol já foram registrados nos bairros Santa Rosa, Jardim Itália e Morada do Ouro, por exemplo.

Em nota, a assessoria da Polícia Militar de Mato Grosso (PM-MT) afirmou que o policiamento no Santa Amália é feito diariamente no período diurno e noturno por meio do sistema de rondas preventivas e repressivas. A assessoria também contou que o tenente-coronel Edivaldo Oliveira, que assumiu o comando do 10º BPM nesta quinta-feira (23.03), está à disposição dos moradores do Santa Amália.

Fonte: Olhar Direto